quarta-feira, 26 de agosto de 2009

LITORAL FM - 24 de AGOSTO de 2009 (com ADEMIR DEMARCHI)



Flávio Amoreira, Ademir Demarchi, Cecília Lopes, Marcelo Rosendo, Chico Marques

LITORAL FM - 17 de AGOSTO de 2009 (com MARCOS PIFFER)



Chico Marques, Flávio Amoreira, Marcelo Rosendo, Cecília Lopes e Marcos Piffer

ÚLTIMOS DE SODOMA (por Flávio Viegas Amoreira)


 
‘’ nenhum habitante até onda avista: a mulher espreitava e nua em pelo nos queria: mal nenhum podia abater naquele instante fora do tempo: faziamos
algo sem fruto no roçar da epiderme;- negamos o mundo omitindo o que fosse perpetuidade: as janelas esbatiam, a água cedia e alguns cumes secos podiam ser pressentidos , os dois amavamos, não! torcíamos para que não fossemos tragados até derradeira aurora; a mulher foi por nós negada: fazia pena com suas estórias, satisfazia seu gosto com instrumento próprio que lhe cabia:
o mundo tornava ser dois homens copulando sem malícia.’’
 
´´Aquela noite ficara como inseto afixado num âmbar: minha memória engatinha no sentido amplo dos detalhes: basta uma noite venturoso tendo o mar como leito para desdobrar-se toda estória duma vida: ele nu me chamando na praia escura foi a visão que delineei do paraíso terrestre; o som da cidade esbatia, sotavento, enquanto me desnudava tendo garantido o monte onde aprumava incerta minha roupa; voltei ao instante da partida com meu homem mais adentro das ondas; senti-me seguro para restituir plano terrestre a feitura dos anjos: magma vulcânico esfriado, rio caudaloso, maresia nos meus poros entranhando a alma de esperma caudaloso do oceano burbulhando em torvelinho. Amei meu homem naquele balneário pré-carnavalesco;
verão , e senti enorme poder de meu desejo sem mais esporas.
Nenhum adjetivo retêm o sabor de nossa substância: fomos gregos, nossos membros se encontraram, senti a naja perpassar como navalha a dorsal espera de meses daquela ausência: a penetração é como um parto avesso. O sentido do corpo é véspera da irremediável lembrança: tenho teu sorriso como referência e a hora da confissão de amor que só dita por êxtase e nele a verdade faz-se também gozo do teu membro. Teu corpo agora passado é maior que a substância daquele instinto: esquadro um holograma aéreo e vejo-te em todos lugares depois pousas-te num átimo o arpão nesse peixe sedento que era esvoaçando no prazer que ia-se me rasgando. Havia micrologias, pequenos hiatos em nosso envolvimento, retive-os todos desde o parapeito ‘a rebentação no precipício ‘as espumas entre teu feixe pubiano: a felação é sagrada como a tentativa do pensamento. Quando juntos faço um Vida, tira a ilusão de outro contato: em ti todos os homens tem um pedaço e formo o primordial. Tuas formas que obedecem as funções inauditas que só eu em minha sodomização claudicante sou capaz de refazer como quem interpõem anarquia no reino obviedade. Macerado, compungido, entra-me e vou permitindo em minhas vísceras  possibilidades de ejaculação recíproca: agora que permanecido dentro de mim, sem o trauma do espetacular transpasse. Enleado, assim te retenho: tirei-te do útero, corporifiquei a anti-vulva: sou um corpo que se estilhaça para que te componhas em conjuntura. Faltava-me o que desconheço, o que não se teve consciência : agora a crônica do Tempo era feito de nosso ajuntamento.
Concentração, seleção: encavernamos. O que sucede, o que passa , todo foi deixado na funcionalidade matriarcal dos lares: sou um lago puto onde passeias, onde bordas. Desabrocho, rasgas-te a rosa e entronizo uma só cor da
carnatura reajuntada das pétalas. Conto a não-presença, nunca a distância:
deixas-te a dor como saudade da alegria. Nunca desisti de teu significado , não te nomeio Amor: você é o que carrego sem sossego, a fenomenologia do meu trajeto desperto. Como meus pés sugados no Oceano, fiz-me esponja: traguei-te.
Turbilhão que suporto, feixe que apascento, homem que digita-se  na minha costela tornado Adão indivizível. Quando estava em mim delimitei todo espaço do universo em minhas coxas conformadas em dramática certeza. Quando puses-te-me em mim implodimos o gênese: refizemos o éden. Que me invente de novo , dissipação que nos define , somos ferozes tolos num céu adejando sem trâmites: depois do fórceps través da ossatura que se moldava ao teu abraço carcomendo minhas defesas em desequelíbrio. Aquela vista da janela soma todos os quadros pontilhados , indescobertos. Não cheguei ver o Mar totalmente por ser essa impossibilidade: o Mar que foi sempre cúmplice e estímulo dos marinheiros, amantes clandestinos e pederastas naufragados. Tomei de ti aroma sem zelo, era-me mais próximo que família e amigos: sou teu amante dito no masculino, e no masculino amante! Fica termo virilizado, forte como um mastro com resquícios de escamas. Cerzido por todas as horas e temperamentos: deixei que a pele desse-te guarida; moras-te em mim num arranque do teu peito contra meus costados vulneráveis ao teu pouso. Rompe abóbada celeste e iluminas de galáxias meu sol escurecido em gelo: escrevi o poema para tua voz e tua sombra; a idéia de segredo é nosso sono passageiro. Desejar teu murmúrio e escolher o teu sonho. Insaciável espera por teu flagrante. Porque não mais desencanto de existir e do dons da quimera:
nunca terá fim o que nomeei pela língua: tua glande, teus pêlos ruivos, tua boca que não fugia do tanto sentimento que te punhas. Teus dedos me apontando a infinidade de carícias: teu rosto que aprecio amaciado no infortúnio de todas tuas defesas ao amor de outro homem que se faz teu corpo de tanto que te desejas. Em ti nenhum fluído é interdito: nada repugna, fascínio tuas marcas e primeiros fios brancos que dizem de nossa ancestral afeição e maturidade compartilhada. O sentimento profundo enobrece, isola; há um púlpito invisível quando do nosso enlace. O tempo vela nossa geologia compartida. A grande falta é dizer-me , falar-me por ti; tudo é convicção do retorno: nada como ultrapasse o liame que nos rompe o nexo. Realidade , flor murcha dum jardim ausente. Quem dera fosse todo Universo a primavera dum tronco oco, advento dum animal estranho adentrando o espetáculo como fera e enternecido quisesse fazer amor toda esfera. Anulamos a discórdia : discórdia dos corpos :
nossos poros não estranhos ao firmamento.   ´´
 
´´A infindável distância / a irascível / irreverssível disposição / desproporção / nunca te pedem ódio por serem complacentes demais com tua estupidez .
A vez do outro é um dano que engoles / queres ser tu / o detentor da honra /
do acerto / senhor da fatalidade. A vida esticava-se como material sendo polido, coisas esboçadas como a estrela marinha que milimetricamente desprende-se dum castelo de areia : o tosco afinado pelo imperceptível : o corpo do homem era refeito pela minha atenção que punha e minha atenção é seu retoque , realce , sublimidade, remoinho de gosto: quando cingia sua nuca e pescoço
era o ápice dizendo que o Amor chegara as alturas : nosso abraço era um clássico da afeição: nada mais subversivo que a sodomia , irmã epidérmica da Arte: faz-se gozo pelo gozo, imanece, soa grandiosa para o silêncio. Quando me toca , um arpejo : sou Lázaro cada noite onde o Mar nos pega em flagrante delito contra o hábito de escolher flores pára os mesmo vazos.  A experiência e seus labores : nossa almas mais se aproximam do Ideal: totalidade. Nosso jogo é uma álgebra : vamos com a imprecisão de ondas trançando equações ao raciocínio : não é da conta do raciocínio a incerteza das vagas.  Não há amor que chegue para o amor.  Mordisquei, ele me ampara, ainda a estrela do mar ou um junco posto fora ao Mar : o ventre anêmona : a face plácida : sei que o amor mora onde a beleza exclama e diz : da-se em deixa ao murmúrio seco , longe de todo olhar espanto : dá-se em dália ou gomo.  Um mar sem estrelas :  a mulher foi posta fora do nosso Paraíso ;  somos aqueles faróis que se iluminam de ardor e desespero acalentado de sombra e magia. ´´
 
´´Ninguém não dizendo nada . Respeitamos a voz da hora. Torna-se preciso ter-se muito vigor, muito juízo para trazer a vida no equilíbrio de nossos dedos. O corpo ampliado pelos pedidos da Alma nunca torna ao tamanho de origem: vai espargindo suas dobras como carnatura vegetalizada: amando árvores e seixos,
canais lúgubres que se encantam no dobre de sinos do Oceano.  A vida é quando se escolhe o dia ou o jogo.  Que a minha embriaguez não seja esquecimento. Vigil : atento até ao inessencial ainda não encasulado . Estranheza original no crepúsculo : emersão no elementar , só o Mar permite o nada que excede o nexo. Qual sentido dos conhecimentos? Olhares? O saber invertebrado:  a razão que inventa sensações que bem poderiam ser antecipadas com mais propriedade pelos sentidos em sua inteireza de fogo-fátuo. Há uma solidão na aurora como gladiador fragilizado as portas das feras no Coliseu: que ruminou toda madrugada o desespero da carnificina que ao seu termo dilacera todo medo que justifica esse espanto. Os cárceres da imensidão A face do morto nos diz sutilezas insofismáveis .  A beleza do homem e do Mar são antídotos contra o vazio que sucede a expansão oca das galáxias. Estou trepando com Deus ultimamente : escrever é parir buracos negros. Dois homens nus na madrugada do Universo.´´

terça-feira, 11 de agosto de 2009

LITORAL FM - 10 de AGOSTO de 2009 (com MARCELLO LARANJA)


Marcello Laranja, Chico Marques, Cecília Lopes, Marcelo Rosendo, Flávio Viegas Amoreira









Foto: Inês Dupetit

Flashes variados do nosso programa com Marcello Laranja (por Inês Dupetit)

























Cultura em Foco (por Flávio Viegas Amoreira, publicado originalmente no website Cronópios)


‘’Ir a lugares, ver pessoas, fazer coisas’’

Assim define o diretor americano Martin Scorsese o conceito de felicidade;- Andy Warhol era mais flavescamente otimista ao dizer : ‘’Eu gosto de gostar das coisas’. Vivemos a transmodernidade, vidas em transe, hipersensibilidade onde as pessoas se distinguem e vencem o niilismo ou a barbárie com ‘’interesse’’ : vontade, desejo, curiosidade visceral:

o que denomino tesão da Alma. Cultura é o conceito mais abrangente para definir espírito humano em busca, rastreando, obsessivamente plugado: a leitura, as artes visuais, a videoesfera, o mundo virtual, a boêmia resgatada, a troca de idéias mais disparatadas possíveis para a era do disparate são alguns tópicos disso denominado Cultura: cultura do desejo, cultura da noite, cultura de lançar pontes entre pessoas, sair do insulamento, formarmos arquipélagos de comunidades e tribos urbanas que não se tornem isoladas, estanques , mas conversem em idiomas infinitos convergindo para a mais intrincada, complexa, mas gozoza Cultura: a Cultura da convivência. O homem interessado, cultivado, antenado, entendido e desencanado de preconceitos que excluam qualquer Cultura genuína é aquele capaz de orgasmos múltiplos ao ouvir jazz, erudito, hip-hop, amanhecer embriagado de Mozart ou Amy Winehouse, como quem percorre o Louvre através da internet ou contempla o mar belo mar selvagem de Santos, Barcelona vivendo como quem vence a morte em exercício da celebração cotidiana da existência: artistas e intelectuais não representam uma casta: são apenas personagens mais sensibilizados pelo milagre de vencer o absurdo e angústia do Ser : a poetização da Vida está alcance de todos: basta tornar artístico nosso exercício de viver. ‘’Não existe Arte inacessível, sim público despreparado’’ – dizia Maiakóvsky. A Cultura não é somente a soma de várias atividades, mas um modo de viver. Apesar de vivermos no mundo, carregamos nosso sentimento telúrico como carga genética coletiva: somos marinhos, cosmopolitas por vocação navegante, a metrópole não nos engole por termos uma identidade geográfica e histórica muito peculiar: o litoral paulista, na verdade Santos estendida em 400 quilometros forma uma das regiões mais privilegiadas por ser berço da civilização brasileira, ter lastro sócio-econômico decisivo para economia nacional e agora por vislumbrar uma crise de crescimento que nos desafia re-pensar: que cidade queremos? Como vamos nos inserir diante do ‘’boom’’ energético? Qual o papel do Estado num momento que sepulta o neoliberalismo e exige de novo a participação efetiva da sociedade civil ? O poder público é movido por demandas: e nos últimos anos a arquitetura , patrimônio histórico, manutenção de equipamentos culturais, turismo cultural tornaram-se tema para plataforma de governo que viam Cultura como preocupação elitista ou blá-blá-blá aviadado. Santos é basicamente cidade pronta exigindo recheio, conteúdo e um padrão comportamental condizente com a hipermodernidade:

não podemos amesquinhar nosso destino com mentalidade de estação de águas: é preciso movimento, agito, visibilidade de nossos eventos, um cronograma cultural arrojado, políticas públicas para a Cultura além da jequice bucólica de bondes ou encenações pândegas de Martim Afonso: uma nova geração bate a porta: devemos metropolizar a Cultura: aproveitar nosso potencial com roteiro histórico integrado, com roteiro sacro integrado e com discurso integrado entre a tradição santista para o glamour que perdemos com as possibilidades riquíssimas de renascimento criativo, intelectual, vanguardismo comportamental propiciando mais barulho além do único permitido: do bate-estaca erigindo prédios de gosto duvidoso para quem só tem vocação para a paz dos cemitérios.

O nome é Phillips, Sam Phillips (por Chico Marques)


Quem assistiu ao filme "Johnny & June - Walk The Line", com certeza ficou impressionado com o jeitão despachado e muito afirmativo do dono do pequeno estúdio de Memphis em que Johnny Cash faz sua primeira audição.

Pois ele foi o homem por trás do início de carreira não só de Johnny Cash, mas também de, entre muitos outros, Elvis Presley.

Seu nome: Sam Phillips.

Sam era um produtor de muito renome na cena musical negra americana, responsável por vários artistas de sucesso do elenco da Sun Records.

Foi Sam quem produziu Jackie Brenston e a banda de Ike Turner no compacto "Rocket 88" em 1951 -- para alguns a primeira verdadeira gravação de rock and roll, que acabou não validada pela história por ter sido feita por negros no Sul racista dos EUA.

Foi Sam também quem produziu no mesmo ano "How Many More Years/Moanin' At Midnight", o primeiro disco de Howlin' Wolf, e "Mystery Train", disco clássico de Little Junior Parker.

Em Dezembro de 1952, Sam Phillips montou o Memphis Recording Service, mais conhecido como Sun Studios, num prédio alugado na 706 Union Avenue, em Memphis. A idéia da Sun era produzir discos, tanto para músicos profissionais quanto para amadores dispostos a pagar por uma sessão de gravação e pela prensagem de um disco.

O primeiro lançamento da Sun foi um compacto de 45 rotações de um saxofonista negro chamado Johnny London, que despontou rapidamente para o anonimato. O nome da música era "Drivin' Slow". Um fiasco de vendas na época.

Quando não estava apostado suas fichas em algum jovem artista branco da cena country and western, Sam Phillips voltava suas baterias para artistas negros de rhythm and blues amigos seus, como Howlin' Wolf, James Cotton e B, B, King. Era ousado: tinha brancos e negros em seu elenco, numa época em que isso não era exatamente bem visto, por nenhuma das partes envolvidas. Nos três primeiros anos de atividade, não conseguiu emplacar nenhum artista em nível nacional, e o sucesso de suas produções nunca foi muito expressivo. Se muito, dava para tocar o projeto da gravadora adiante.

Diz a lenda que, um belo dia, um jovem caminhoneiro que queria virar cantor veio bater às portas da Sun Records com suas economias na mão querendo gravar um compacto para dar de presente para sua mãe, e cantou dois números country: "My Happiness" e "That's When Your Heartaches Begin". Esse jovem caminhoneiro, que se chamava Elvis Aaron Presley, era branco mas cantava com uma levada muito semelhante à dos negros que Sam gravava. E então, ele resolveu fazer uma aposta pessoal nele. E... bem, o resto é história.

Sam moldou Elvis, mas tratou de manter sua essência intacta. No entanto, perdeu o controle sobre o sucesso nacional de Elvis, e acabou tendo que vender o seu passe para uma gravadora grande, a RCA, pois não tinha como dar o suporte promocional que era necessário para Elvis naquele momento.

Ou seja, foi obrigado a passar adiante sua galinha dos ovos de ouro, por falta de estrutura como empresário.

Nunca mais cometeria esse erro.

E logo percebeu que haviam muitos outros daquela mesma tribo dando sopa em Memphis: Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Roy Orbison, Johnny Cash, etc.. Contratou a todos, um por um, e ficou rico com o legado musical desses grandes artistas.

Mas o que faz dele uma figura tão importante na cena cultural popular americana foi sua coragem. Os discos que ele lançou na fase de ouro da Sun geravam reações violentas do público conservador do Sul dos Estados Unidos. Basta dizer que os estúdios Sun foram apedrejados diversas vezes na segunda metade dos anos 50. Fazer o que ele fez na época exigia muito mais do que simplesmente oportunismo e visão de mercado. Tinha que ser muito ousado para encarar com galhardia uma situação tão adversa.

Dos anos 70 para cá, Sam Phillips trabalhou eventualmente como produtor de discos -- quase sempre nos antigos Estúdios Sun --, mas procurou concentrar seus esforços dirigindo suas emissoras de rádio no Alabama. Em 1986, foi indicado para o Rock And Roll Hall Of Fame. Em 2001, recebeu todas as honras possíveis e imagináveis no Country Music Hall Of Fame.

Morreu no dia 30 de Julho do 2003, em Memphis, Tennessee, aos 80 anos.

No entanto, de tempos em tempos, ele ressurge das cinzas, como na cinebiografias espetaculares de Jerry Lee Lewis ("Great Balls Of Fire") e de Johnny Cash e June Carter ("Walk The Line").

Podem ter certeza, vai ser difícil para a história da música popular conseguir esquecer Sam Phillips.