sexta-feira, 17 de julho de 2009

Vida Longa a The Dead! (por Chico Marques)


Assistir TV de madrugada sempre reserva gratas surpresas.

Quase não acreditei ao ver um dia desses no Late Show With Dave Letterman (canal GNT) uma performance impecável do lendário grupo de San Francisco, Califórnia, The Dead, atualmente em tournée pela "wasteland" herdada por Barack Obama de George W. Bush e Dick Cheeney -- para não mencionar Bernie Madoff e a gripe suína.

The Dead, para quem não sabe, é a lendária superbanda The Grateful Dead sem o guitarrista Jerry Garcia, que morreu há quase 15 anos -- agora com o craque da guitarra Warren Haynes (da Allman Brothers Band e do Gov't Mule) em seu lugar.

Claro que não é a mesma coisa dos tempos em que o Grateful Dead estava na ativa, até porque Jerry era um grande alquimista musical, um dos melhores que a América já produziu.

Mas o segundo guitarrista do Dead, Bob Weir, por sua vez, sempre esteve longe de ser um mero coadjuvante na banda. O baixista Phil Lesh idem. E os dois bateristas Bill Kreutzman e Mickey Hart continuam sendo uma das cozinhas mais estranhas e inusitadas da cena musical americana.

Ou seja: nada como o tempo, uma crise financeira e um pouco de LSD para que certas resistências se afrouxem, e certas reverências sejam deixadas de lado, em nome de um objetivo maior.

Vendo os integrantes sessentões do The Dead no Late Show With Dave Letterman, de volta juntos depois de um hiato de 18 anos, com suas barbas brancas e sua musicalidade resguardada, me ocorreu que não existe melhor banda cover do Grateful Dead do que eles próprios.

E isso, por si só, já é um excelente motivo para que estejam de volta à vida.

Vida longa a The Dead!



THE DEAD ao vivo no LATE SHOW WITH DAVE LETTERMAN

THE DEAD ensaiando

Sampoema (de Flávio Viegas Amoreira)


Teu ventre regurgita seres de estranheza
orgíaco encanto terra sem marcos
acampamento solidário aos lobos da estepe
poetas / fodidos/ eruditos de céu in-concreto:
campos de pivas orides fontellas panaméricanos
agripinos catadores lumpensinato estelar
vencer Sampa é perde-lhe o medo
tua geografia são seus rostos bolívares-norte-coreanos
lagos anônimos de gozo e morte
a Paulista é praia de ondas com pressa cimento
cal fétido / grana espúria : do Jaraguá vejo-te
cosmovo : Sampa é ducaralho divino esporro
único mundo donde perdi o medo: perder nu ao medo
nu era o começo indistinto agora reconheço
alamedas / janelas / quartos de estória
em cada cômodo um coito / parto / féretro
águas pútridas / córregos em transe / pirajuçaras
marginais de rios carontes refletindo desespero
de Virgilíos e Dantes : cosmoagonias :
Sampa é ducaralho azar mais sorte:
a vida não perdoa desatento transeunte
tudo-todo-rola-cada- instante; poemizosampa
navalhando névoas cinzas nuvens de estanho
ilusão paraísos consoloção liberdade jardins
oscar freires de infame exclusão marianas
ângelas leopoldinas vilas no caminho havia uma
praça trecho arremedo de troços e a praça fez-se
árvore numa igreja de enforcados insones luzes de
horas : cada habitante inapetente é uma paisagem
espreitando esconderijos dalguma memória
te esperam vãos / vales / veredas / te esperam algum
sentido : algum sentido para onde damos em alamedas
becos / beneditocalixtos / anhamgabamentos
conas / répteis / fósseis / múmias virgens
salve Sampa sodomizada / poesia pederasta oralizada:
todo-tudo-sempre é Sampa e Sampa é foda:
aqui-quase-nada / quase-nada/ nada em orgasmo
múltiplos de signos/ significados infindos
vejo estranhos que passam: eu Whitman tropicano:
garanhões / ninfetas / anjos putos/ proxenetas
risco que corro e escorro longa mirada para ser feliz
num átimo / fóton de esquina por esquina
senhas códigos berros espectros em amuradas
Davids Lynchs / Win Wenders / barras códigos estacas:
Meu cérebro é onde? : noites de autorama
Madrugafas mais darks que a escuridão do nada
Interlagos de lágrimas: engulhos esgares vômitos
Da metrópole essa meretriz viada que comigo deita
Quando esparramo-me de paisagem e realizo delírio
Por inteiro : eu sou carona de teus fetiches pesadelos
Espasmos oníricos: insights luminares / beatniks
Transmodernos / aqui Deus é Joyce , Mallarmé é seu profeta :
eu moro é na Literatura sampauleira sampaulisto
sampinferno sanparteiro de entradas
bandeiras volpianas baratas forasteiras trens sobrehumanos
traças suburbanas : trago o gole de amargura oswaldiana :
a tristeza é a prova dum 69
sou 13/ 11 / oito infinito, infinito onde o som se estreita/
andróides / zumbis / iracemas da Vieira / índios de Moema
incorporo metálico estalido dos espigões em meu rabo
e meus cornos eriçados de antenas
Sampa é zoom!!!!
Disposto o peito aberto a camisa em desalinho
Sampa me afronta com sua zona e risco
Sampa é o Ó entre brejos e bronhas :
atmosfera saída dum filme B
assassinatos chacinas negras noir
ferozes volantes / violência fashion
homens mix de mulheres
blade runners andróginos : transgêneros líricos
merda cercada de gente por todos os poros dos lados
dentro estou fora e foda-se o recheio
o borbagato me bulina / sinto a maresia baseada
no Oceano lisérgico na imagética moldada por camadas de cânhamo:
O Mar é longe / vagas de gente empoçam
castelos de areia: a multidão é sempre sociedade anônima :
cambaleio / resisto por grutas/ grotas/ gretas/
rizomas/ elevadores capengam / shoppings da babilônia:
midnights cowboys pela gay caneca
não existem pontes entre todas essa gente
viver é lançar pontes do vazio refletindo a luz do nada
muretas guaritas tiras do ouro bandeirante
nada insiste subsiste uma vista onde nunca se
encaixa ao mesmo tempo ao todo se situa
onde mora o deserto é menos só que na Augusta
a chama tupi jazz, jazz, jazz em terracota e taipa
em Sampa fiespe-se, fiespe-se ou foda-se!
Urbe orbe pulsando fênix de turbinas em chamas
Caldeiras / turbilhão : miragem do movimento
Sempre estamos onde nem supomos
Os vagões levam homens apalpando suas malas
Duras penas / diamantes em pencas chaminés de ouro
Cravejados de sapopembas e diademas
Eu canto por que minha alma não desiste
Penso, louco logo resisto!
Reconheço todas tribos
O gigante polvo capitalista não é nada perto de nosso
Espanto e grito
Cruel argamassa solitude que nos une
Artefatos / bólidos/ hélices / inversão térmica das cores
Sampa é asco que não afugenta
Náusea que me alucina
Sampa não existe : está sendo no ato:
Porra loca dum gozo carcomido
O mercado come-se : dinheiro é autofáfico
Cria é para sempre onde sempre exista
Sampa anda em mim por via estreita
Poetemos onanistas!
Abaixo arcadas cerebrais: descontruir discursos é urgente!
Façamos desse cu doce subversivo argumento.

(na foto: os escritores e artistas plásticos Paulo Pessoa Andrade e Felipe Stefani, o escritor Winner Chiu e tradutora alsaciana Gaby Kirsch, todos na saída do Ponto Chic da Paulista esquina com 13 de Maio)

Foto de Paulo Von Poser

LITORAL FM - 13 de JULHO de 2009 (com RUY DEBS)


Gino Caldato, Ruy Debs, Cecília Lopes, Chico Marques, Marcelo Rosendo

PRÓXIMO CORINGA - RUY DEBS



RUY DEBS é arquiteto e autor do livro "Artacho Jurado - Arquitetura Proibida" (Editora SENAC)

Ás Especialmente Convidado
GINO CALDATO (arquiteto)













QUATRO ASES E UM CORINGA
Segunda, dia 13 de Julho, em novo horário, 19 horas
Reprise Terça, dia 14 de Julho, 24 horas
Litoral FM, 91,9 MHz
(para ouvir online:http://www.litoral.fm.br )

Sinfonia de Navios Andantes (poema de Flávio Viegas Amoreira)



o meu coração vaga em segredo
vento que ronda forasteiro sobre o mar
canta a dor das águas no dia que não mais mourejar

meu peito
todo corpo
alma / pensamento
torna ao Oceano zarpando
sem cais rondarei / abissal de gotas condenso
navio ébrio ondeando / poeta entoarei cantos
no longe infindo onde não mais atracar

na beira do céu por ti espreitando
léguas distando de infinito a infinito
buscando / ainda terei tempo eterno
ao navegar de retorno hei de novo te achar

mais afastado tanto é o aproximar
na noite a aurora / desfio o começo

caos / cosmo : verei o princípio do mundo
fechando entre o Sangava e o Xixová
meu Éden / estirado da barra ‘a enseada
os contornos da serra adeuses onde a terra jaz
nem paragem ou porto : rochedo soluto
ou galáxia / te espero em desterro
sempre em Santos ou nenhum lugar.

[poema dedicado ao cineasta francês François Ozon,
Intérprete do sentimento marítimo do mundo.
Composto em 2009, Ano Brasil-França]

(na foto, Flávio fazendo uma leitura poética
na Casa das Rosas, na Avenida Paulista,
dia 2 de julho de 2009)

Foto de Paulo Von Poser

Wacko Jacko: Morto e Enterrado (por Chico Marques)



Eu tinha prometido a mim mesmo que não iria escrever sobre Michael Jackson. Já basta a cobertura pegajosa da Imprensa, que quando não pendeu para o fanzine puro e simples, mergulhou de cabeça na grotesqueria cotidiana do "Rei do Pop".

"Rei do Pop"?

Jackson começou a se autoadular com essa expressão portentosa no seu primeiro grande momento de baixa, quando lançou o disco "History" -- um álbum duplo de 1995, mezzo greatest hits, mezzo disco de carreira, com 14 músicas novas que ninguém conseguiu memorizar e que mal tocaram nas rádios, de tão inexpressivas que eram.

Para endossar seu "título de nobreza", armou um casamento com Lisa Marie, a filha problemática do "Rei do Rock" Elvis Presley com a excelente atriz cômica Priscilla Presley -- que, além de não ser um casamento de verdade, não era feito para durar, pois sua função era apenas fornecer a Michael Jackson estofo familiar (dos Presleys) para ser aclamado "Rei do Pop" e reinar eternamente nesse posto. Ou seja, coisa de quem viu filmes de Walt Disney em excesso. Faltava apenas a Imprensa comprar a idéia e martelar bastante até o título "Rei do Pop" cair na boca do povo.



O problema é que isso não aconteceu. Em meados dos anos 1990, a baixa de popularidade de Michael Jackson revelou-se irreversível e a sucessão de escândalos envolvendo acusações de pedofilia e outras bizarrices não só renderam a ele o desagradável apelido "Wacko Jacko", como também serviram para jogar sua imagem pública num buraco aparentemente sem fundo. Financeiro, inclusive.

Eu tinha prometido a mim mesmo que não iria escrever sobre Michael Jackson, mas o caso é que levei um tapa quando li na web, na noite em que sua morte foi anunciada, a expressão "Rei do Pop" sendo usada por quase todos os órgãos de imprensa em uníssono. Só The New York Times não usou, preferindo o tempo "ícone pop".

Fiquei pensando na ironia assustadora por trás disso, e no fato inquestionável de que a morte fez muito bem a Michael Jackson, pois, assim que foi declarado morto, sua carreira ressuscitou, seus discos voltaram a ser fenômenos de vendagem no mundo inteiro, tudo foi esquecido, tudo foi perdoado, e agora até as crianças podem se encantar com a figura do 'Rei do Pop" sem medo de uma "contrapartida afetiva inadequada" dele.


"Rei do Pop"?

É inegável que, sem a ajuda inestimável do genial maestro, arranjador e produtor Quincy Jones, Michael Jackson jamais conseguiria deixar de ser um artista do segundo time da soul music da Motown para assumir um posto no Olimpo Pop. Quincy mostrou a Michael o caminho das pedras e explorou todas as possibilidades mercadologicamente viáveis que ele tinha para oferecer. Deu no que deu.

O primeiro disco de Michael Jackson sob a tutela de Quincy, 'Off The Wall", ainda guardava ligações estreitas com a herança da música negra da Motown, mas de 'Thriller" em diante essa herança se dissipou em meio a todas as tendencias musicais em voga no início dos anos 80, resultando num produto pop absoluto, que não tinha mais cor ou origem, e que estava voltado para um alvo muito amplo e abrangente -- que, para surpresa de muitos, terminou atingido de forma plena e absoluta.

Claro que, assim que Quincy Jones se desvinculou de seu papel de produtor, o declínio de MIchael Jackson foi inevitável. Seus discos ficaram tão pálidos quanto sua pele, e sua insistência em se afirmar como compositor -- a partir de "Bad" -- só serviu para revelar ao público onde seu talento falhava, e de forma gritante.



Enfim, foi melhor para Michael Jackson sair de cena assim, sem aviso prévio.

Se embarcasse nessa sequência de 50 shows caça-níqueis em Londres, certamente teria sido acompanhado passo a passo pelos implacáveis tablóides britânicos, incomplacentes com suas esquisitices infantilóides, suas idiossincrasias sexuais e seus mais que prováveis acessos diários de estrelismo -- além, é claro, das inevitáveis bizarrices.

Pois agora acabou: "Wacko Jacko" está morto e enterrado.

Já Michael Jackson, o "Rei do Pop" -- com ou sem aspas --, permanece. Sabe-se lá até quando.

LITORAL FM - 6 de JULHO de 2009 (com GILSON DE MELO BARROS)


Marcelo Rosendo, Gilson de Melo Barros, Chico Marques, Flávio Amoreira e Armando Catunda